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quarta-feira, 31 de março de 2010

VAMOS OPINAR SOBRE AS OBRAS DA AUTORA...

 Margarete Solange 
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Existe uma Comunidade criada no orkut por Késia Maressa chamada  “Escritora Margarete Solange” que diz:
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Essa comunidade é para todos os que lêem e admiram as obras dessa escritora norte-riograndense. Um espaço criado para darmos opiniões, sugestões e críticas. Se você já leu ou pretende ler as obras de Margarete: Seja bem vindo, esse espaço é seu.
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Em seguida, nos tópicos, lança o convite:

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Vamos opinar sobre as obras da autora.
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Entre os recadinhos deixados deixados...

Maressa, (Natal, RN) professora de inglês, diz:
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Em minha opinião são muito divertidas, acho que o leitor viaja. E as obras são indicadas para todas as idades


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Elaine (Natal, RN)
Estudante de Letras, diz:
Sou aluna e fã!!! Adoro seus livros, tudo que ela escreve é mágico...e as poesias são muito intensas, como se buscasse em sua alma a inspiração das palavras...
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E você o que tem a dizer
sobre as obras da autora?
Participe, deixe o seu recado!


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segunda-feira, 29 de março de 2010

Prefácio da Professora Midiã Borges

Para o livro Inventor de Poesia Infantil:
Fantoches e Poesia da autora
Margarete Solange.

O universo infantil, por si só, já é poético, já que a poesia requer de nós uma alma mais leve e um coração mais puro, para que possamos captar a beleza que há na vida e em cada detalhe através do qual ela se manifesta. E não há terreno mais propício para a poesia do que a mente, a alma e o coração de uma criança. Contudo, ainda há alguns obstáculos para que a poesia se popularize entre elas. Entre tais empecilhos, o mito de que os pequeninos não gostam dos versos.
Acredito que quando o que lemos é atraente e apresenta uma linguagem que favorece a compreensão, a leitura torna-se inevitavelmente prazerosa, o que nos faz ler para dormir e até acordar para ler. Afinal, leitura boa é aquela que se realiza por e com prazer. Por esse motivo, o livro Inventor de Poesia Infantil constitui-se uma viagem mágica e poética pelo mundo infantil. Cheio de rimas e versos que nos emocionam e nos fazem sorrir, aborda temas leves e acontecimentos do cotidiano, como um dia de chuva. Nele, a autora instiga as crianças a contar carneirinhos ou a responder perguntas típicas das curiosas mentes infantis: afinal, como se chama o filhote do cágado?
Este com certeza é um dos pontos fortes do livro: o diálogo que cada poesia mantém com as crianças, levando-as a interagir com o texto, a entrar porta adentro na poesia. Essa interação nos envolve e nos motiva a ler sem parar. Faz com que o leitor desempenhe um papel ativo diante da leitura e queira devorar cada verso e em cada poesia encontrar um pouco da criança que em nós eles vêm despertar, independente de sermos (ou não!) tamanho P.
Além dessa conversa com o leitor, outro ponto-chave é a intertextualidade que o livro mantém com contos e histórias infantis e textos bíblicos, o que ajuda a criança a desenvolver a capacidade de associar o novo ao que já foi escrito, percebendo as semelhanças e diferenças que as poesias apresentam em relação aos textos originais, tornando o livro uma poderosa ferramenta para se abordar a intertextualidade com as crianças. A forma fácil e bem-humorada como se apresenta, serve de motivação para que as crianças escrevam suas próprias poesias sobre princesas adormecidas – ou, quem sabe, acordadas – e patinhos não necessariamente feios e desengonçados.
A autora aborda de forma poética temas complexos, porém muito relevantes, como o preconceito, o direito à liberdade, os anseios das crianças em relação ao próprio futuro, as mudanças decorrentes da transição da infância para a adolescência e os padrões de beleza estabelecidos pela sociedade atual: será que o burrinho é tão burro assim? O que vou ser quando crescer? É certo privar o passarinho de voar? E quem disse que a princesa tem que ser branca como a neve? O modo lúdico como essas temáticas são apresentadas facilita sua abordagem com as crianças, proporcionando o ambiente ideal para o debate. Cria-se, de forma lírica, um espaço para que a criança aprenda a pensar e a questionar sobre aquilo que anteriormente apenas lhe era apresentado, colaborando para o surgimento e desenvolvimento de sua criticidade, tornando-os cidadãos atuantes, capazes não só de refletir, mas também de transformar o mundo em que vivem, e fazê-lo de modo criativo e poético.
Um outro aspecto bastante positivo é a interação que as poesias tecem com a natureza. Ao longo de toda obra, os animais são presença constante – afinal, quem nunca quis ter um bichinho de estimação?! Figurinhas simpáticas, seja por seu quá-quá-quá desafinado, seus maus hábitos de higiene ou suas ideias mirabolantes – que o diga o elefante!
É por trazer de maneira meiga e singela diversos temas de interesse das crianças que o livro como um todo é um convite para que tornemos poesia uma cena corriqueira da natureza: uma flor que desabrocha, um sapinho entre as folhagens, um exército de formiguinhas ou um cachorro preso no quintal. Ou para que, assim como a autora, homenageemos pessoas queridas..


Então, vinde, criancinhas,
(de todos os tamanhos)
E façam poesias.
Despertem seus corações para esse mundo
Que emociona, alegra e contagia.
Tornem-se vocês também inventores de poesia
E não esqueçam de dizer
Qual bichinho é o companheiro ideal,
Pois este livro foi feito pensando em você
E a sua opinião é muito especial.

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Midiã Borges
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Professora de Língua Portuguesa
e Redação no Ensino Fundamental II.
Graduada em Letras e
Especialista em Leitura e
Produção Textual pela UERN.

GUARDA-CHUVA - Poema Infantil

de Margarete Solange             .
Chove muito. Chove e para.
Chove e pinga.
Pinga, Pinga.
Pelas ruas segue
Um guarda-chuva enorme
e
Um menino alegre
Que se abriga embaixo
Com um saquinho de compras
Debaixo do braço.
Pés descalços
Pisam a calçada fria
e
A água desce
Grossa e amarelada,
Numa enxurrada parecendo um rio.
Cessa a chuva.
Pinga, Pinga.
Talvez modesta seja a morada
Do menino magro
De pernas tão finas
e
A riqueza seja
O seu guarda-chuva
e
A roupa nova
Que ficou guardada...


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.* *Nas últimas páginas desse Livro, encontram-se relatos de uma pesquisa na qual crianças de 10 a 12 anos apresentam criticas e sugestões sobre as poesias da autora.

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Fonte: 
Margarete Solange. 
Inventor de poesia infantil: 
fantoches e poesias
Queima-Bucha, 
2010

MARY NOBODY

Conto de Margarete Solange
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Chamava-se Maria Batista. Tinha quase trinta anos. Não tinha parente influente, mas era talentosa.
Tão logo concluiu o seu primeiro romance, começou a peregrinação pelas editoras, tentando conseguir que alguém lesse a sua obra e a indicasse para publicação. Era inútil. Algumas vezes a desanimavam por causa da quantidade de páginas escritas. Outras vezes, sugeriam que arranjasse um pseudônimo, ou esperasse ficar mais velha para adquirir mais experiências, e assim por diante. O fato é que, em nenhum lugar por onde passou, alguém se dispôs a ler uma página sequer do que ela havia escrito.
Por fim, resolveu insistir numa editora indicada por um colega que tinha conseguido publicar, por ela, vários livros de poesias. Para ele, a idade não pareceu problema algum, tinha dezenove anos o rapazinho. O seu estilo era, sabe aquele tipo de desabafos bem particulares, que não interessa ao leitor maduro? Pois eram assim as suas “poesias”. Mas como tinha um nome bonito, um sobrenome de gente influente, bastava querer, e os seus trabalhos eram publicados, sem demora. Tão ingênuo era que garantiu à colega que o pessoal da editora era superbacana; precisava tão somente se apresentar lá com o trabalho datilografado, e não enfrentaria dificuldade alguma. Bom, lá se foi Maria tentar mais uma vez.
Não conseguiu falar com o “chefão”, mas falou com alguém que também tinha poder para decidir. O final da conversa foi mais ou menos assim; digo mais ou menos, porque quando fico indignada com alguma coisa, ao passá-la adiante, costumo exagerar. As pessoas gostam de ouvir exageros, principalmente se os acontecimentos são trágicos ou cômicos. 
– ...Mas minha filha, veja bem... não!... Pense comigo: Maria Batista? Já não cai bem para uma escritora se chamar Maria e ainda mais o sobrenome Batista. Vá pra casa, invente um pseudônimo e depois volte pra gente conversar.
Saindo do gabinete desse, Maria resolveu tentar um outro também responsável pelo setor de publicação. Como a conversa foi quase a mesma, basta registrar novamente apenas o finalzinho:
– É... a capa tá... bonitinha – colocou o livro diante dos olhos girando-o até que ficasse de cabeça para baixo. – Foi você mesma quem desenhou? Muito criativa... É, parece talentosa mas... Veja bem, as cores, o visual, o título da obra, tá tudo bem arrumadinho, mas o que está tirando a harmonia aqui é o nome da autora. Que tal inventar um sobrenome estrangeiro?...
Entregou o livro a Maria, levantou-se, bateu-lhe levemente no ombro, a fim de que a moça entendesse que o assunto estava encerrado.
– Olhe, vou lhe dar um conselho: amadureça mais a sua ideia. Você ainda é muito jovem. Um escritor pra ser bom mesmo tem que ter experiências. Quanto mais velho o escritor for, melhor, entende? Você só tem vinte e poucos anos, ainda é uma criança...
Essa, Maria não suportou. Pôs-se de pé bem perto do bigodão do homem e falou já sem calma:
– Afinal, o senhor me diga quantos fios de cabelos brancos um escritor precisa pra que resolvam lhe dar crédito? Gostaria de saber, só assim sairei daqui direto para um cabeleireiro para mudar o visual.
Não deu outra, o homem ficou todo ofendido com o atrevimento de Maria e jogou-lhe na cara que, desde o principio, percebera que ela não tinha talento algum, era tão somente uma adolescente sem experiência de vida.
Sete meses depois, Maria estava de volta à mesma editora. Usava uns óculos à lá John Lennon e descoloriu os cabelos, deixando-os brancos como a lã das ovelhas. Por falta de idade, não iria mais deixar de publicar o seu romance.
Perceba como a conversa foi diferente, desta vez:
– Bom, vovó. É que o povo gosta mesmo é de novela, de filme. Hoje em dia ninguém lê mais, não. Por que a senhora também, em vez de ficar perdendo tempo com bobagens, não vai fazer outra coisa mais útil?
A falsa velhinha, muito bem preparada e eloquente, pôs-se a argumentar sobre a importância dos livros e da leitura para a vida das pessoas. Dava para perceber que a velha era bem informada, mas o homem nem atentou para isso, queria mesmo era deixar de ser importunado. 
– Tá bem vovó, vamos fazer o seguinte: tente resumir esse romance, tá muito volumoso, quantas páginas ele tem? – deu uma olhadela na última página. – 215! Pois é, ninguém lê um livro de quase trezentas páginas... Basta umas 100, por aí.
No momento em que Maria tentou argumentar que, se resumisse a sua obra, poderia até tirar-lhe o sentido, o homem disse que não tinha problema nenhum, as pessoas nem iriam notar. O importante era ser fininho para encorajar as pessoas a ler. E ainda disse mais que não precisava ter pressa, ela podia resumi-lo bem devagar, pois estava já bem velha e, se deixasse para publicá-lo depois que morresse, seria até melhor, porque um escritor fica mais valorizado depois que morre.
Maria viveu com tanta convicção o personagem da velhinha que quase enfartou de tanta contrariedade que teve. Ora, quem já viu tamanho descaso?
Dois anos se passaram, até que decidiu retornar a essa mesma editora para fazer uma outra tentativa. Para isso, precisou da ajuda de uma amiga que também era boa em representar. Pintou os cabelos de louro extravagante, pôs nos olhos um par de lentes azuis e, assim, se apresentaram na recepção. Desta vez, Maria fazia-se passar por uma estrangeira que viera morar no Brasil.
Rapidamente as portas se abriram. Ofereceram-lhes chá, café e água mineral. Os funcionários que transitavam pelos corredores, gentilmente ofereciam os seus préstimos. Em pouco tempo, Maria tornou-se o centro das atenções e, assim, foi enviada diretamente ao editor-chefe. 
A moça estava usando o nome de Mary Nobody e levava consigo, além do romance, um conto escrito em inglês, com a devida tradução para o português. O conteúdo do conto não era importante naquele momento, bastava apenas que acreditassem que ela era estrangeira. Não podia cruzar os braços, tinha que tentar de todas as maneiras. Afinal, sabe-se que alguns supervalorizam o que vem de fora ao passo que deveriam apostar um pouco mais no talento nacional. 
Meia hora depois, a metade dos funcionários da editora já tinha lido o conto da “estrangeira”. E como a “tradutora” garantiu que o romance era bem melhor, mesmo sem o terem lido, já passavam adiante a informação de que a desconhecida era uma excelente romancista.
Para dar mais realismo à façanha, a amiga anunciou que Mary não entendia nada do nosso português. Assim, sempre que as pessoas falavam com a Maria, ela servia de intérprete. Mais divertido não poderia ser. Se não conseguisse publicar o seu livro desta vez, pelo menos teria material para escrever um outro. 
    No fim da tarde, depois de terem satisfeito a muitos curiosos que queriam treinar o seu inglês com a escritora, estavam de saída, com a certeza de que o romance seria publicado o mais rápido possível. Certa de que o editor-chefe não entendia nada de inglês, Maria sentiu-se muito à vontade para diverti-se à custa dele. Na hora de despedir-se, disse-lhe, sorridente, enquanto apertavam as mãos: 
      – I have been here many times you fool and you didn’t publish my novel. Now I have returned and you have solved my problem because you have thought I am foreigner, but the truth is that I am a Brazilian just like you, with a great difference: I am smart and you are just a donkey in pants[1].
Como a amiga não podia dar-lhe uma tradução fiel, improvisou as seguintes palavras.
– Ela diz que gostou muito do povo brasileiro... que aqui tem muita gente de talento e que vocês deveriam dar mais valor aos escritores nacionais.
– Eu não entendo muito de inglês, não, mas se não me engano, ela falou o nome calças...
– Ah! É verdade... ela disse que gostou muito de suas calças.
Foi aí que o chefe, envaidecido, resolveu ensaiar o agradecimento na língua da visitante.
– Thank you very much.[2]
– Not at all, you donkey in pants.[3]
A tradutora, esforçando-se para não deixar escapar uma gargalhada, comentou: “Ela realmente gostou de suas calças”.
Três meses depois, a tiragem estava pronta: dez mil exemplares, sem que Maria tivesse gastado um centavo de seu bolso; quer dizer, gastar, ela gastou, com as lentes e a pintura do cabelo, e coisas desse tipo.
Na hora de despachar os livros, o editor-chefe veio pessoalmente fazer-lhe a entrega. Estranhou quando viu o nome Maria Batista estampado na capa do romance, ao invés de Mary Nobody. A explicação dada pela tradutora foi a seguinte: Mary quis fazer uma homenagem ao Brasil adotando um pseudônimo bem brasileirinho. 
A partir de então, Maria Batista passou a ser um ótimo nome para uma escritora. Por fim, o chefe despediu-se da senhorita Nobody com beijinhos e, querendo agradá-la de todas as maneiras, entregou-lhe um “presentinho” já cheio de saudade. E imagina o que havia dentro do embrulho que Maria recebeu? Não imagina?! Pois tão logo nossa heroína teve o presente em suas mãos, deduziu, de imediato, do que se tratava: eram as calças que o homem usava por ocasião da primeira entrevista e que, segundo a tradutora, ela havia apreciado por demais.
É... foi assim que a carioca Maria Batista iniciou sua carreira literária. Hoje ela é nacionalmente conhecida por seu talento e por sua astúcia também.

*     *     *



[1] Eu vim aqui várias vezes, seu tolo, e você não publicou o meu romance. Agora eu volto e você resolve o meu problema porque pensa que sou estrangeira. Mas, a verdade é que eu sou brasileira como você, com uma grande diferença: eu sou inteligente, e você é somente um jumento de calças.
[2] Muitíssimo obrigado.[2]
[3] Não há de que, seu jumento de calças.


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Fonte 1: Margarete Solange. 
Mais Belo que o Pôr-do-Sol e outros contos
 Santos Editora, 2000.
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Fonte 2:  Margarete Solange, 
Ninguém é Feliz sem Problemas e outros contos*
Fundação Vingt-un Rosado, 2009.

Nota
*Obra premiada no concurso literário,  escritor Norte-riograndense:
Projeto Rota Batida III. Fundação Vingt-un Rosado.

Com base na história de Malba Tahan e outros escritores dos quais as a autora também faz parte, surgiu o conto Mary Nobody. Essa coisa de ser reconhecido depois que morre não tem lá muita graça. Escritor sofre!
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domingo, 28 de março de 2010

FILHOS DA POBREZA

Conto de Margarete Solange

1984. Estava indo fazer uma reportagem numa cidadezinha chamada João Câmara, mais conhecida pelos moradores do lugar como “Baixa Verde”. Eu iria acompanhada de um fotógrafo que era novato em nosso jornal. Além de atrapalhado, o cara tinha o costume de não ser pontual. Assim sendo, para evitar esperá-lo além do previsto, eu costumava ir pegá-lo na casa dele. Parei o carro em frente ao prédio e buzinei insistentemente, dando demonstração de pressa. Algum tempo depois, o bonitão surgiu com a mãe a tiracolo, ajeitando o filhinho aqui e ali, me fazendo lembrar uma gata que lambe os seus filhotes.
– Vamos, Léo! – gritei para apressá-lo.
Quando o meu companheiro de trabalho preparava-se para entrar no carro, surgiu ao seu lado uma mocinha meio acanhada. Ela usava um vestido de tecido barato e muito florido, o que me fez imediatamente concluir a sua origem.
Trocou umas poucas palavras com Léo e entregou-lhe uma certa quantia em dinheiro, que hoje deveria corresponder a dez reais.
– Quê que ela queria, Léo? – indaguei curiosa.
– Pediu que eu entregasse esse dinheiro à mãe dela... lá no interior para onde estamos indo... Ela é de lá, daquelas bandas.
Mudamos de assunto, conversamos, rimos, cantamos, até que, por fim, chegamos à cidadezinha. Fizemos nossa reportagem e, quando achei que só nos restava pegar a estrada de volta, Léo me lembrou de que precisava entregar o dinheiro que a mocinha enviara para seus pais. Perguntou na feira por seu Zé Felinto, marido de dona Nova e pai de Marlene, e ficou sabendo que eles moravam um pouco mais afastado da cidade, num lugar chamado “Arisco do Sotero”.
– A fia casada dele mora naquela casa róseo... – anunciou o vendedor, que foi interrompido pela mulher do lado, para dizer que nem entregasse a encomenda porque ela não falava com o pai.
Léo perguntou se o lugar era distante e, como disseram que não, ele decidiu que iríamos até lá. Queria ter certeza de que a encomenda chegaria com segurança ao seu destino.
Eu estava a ponto de lançar-lhe, em rosto, todo o meu desagrado. Achava que tinha motivos de sobra para fazê-lo; afinal de contas, já havia aguardado, pacientemente, dentro do carro, enquanto Léo desfilava seu charme pela feira, comprando as novidades do lugar para levar para sua querida mamãezinha. Era pamonha, feijão verde, beiju, grude e nem lembro mais o quê, embalados carinhosamente para viagem.
Decidi não reclamar a decisão do meu companheiro. Com minhas implicâncias, eu iria, tão somente, impedir aquele filho exemplar de realizar mais uma de suas boas ações. Mas não posso deixar de confessar que esse seu jeito bondoso e mimado de ser era motivo para eu fazer chacotas com ele, principalmente nos momentos em que estávamos reunidos com os outros colegas na redação do jornal onde trabalhamos.
Depois de penarmos bastante procurando a morada do tal Zé Felinto, nos aproximamos da casa de taipa indicada por um homem que seguia com sua enxada sobre o ombro. Ao ouvir o ruído do carro, todos da casa saíram à porta, como que aguardando nossa chegada. Os filhos menores agarravam-se à saia da mãe, de modo que ficavam quase que totalmente escondidos por trás dela.
Descemos do carro. Leonardo apresentou-se dizendo que vinha da parte de Marlene, a moça que trabalhava num dos apartamentos do condomínio onde morava. Ao pronunciar esse nome, a mulher pareceu engasgar-se com as palavras que queria pronunciar. Com voz embolada e emocionada, ela disse:
– Diga a ela que fique por lá.
            Eu, curiosa de nascença e acostumada a fazer perguntas, graças à minha profissão, sentei-me num tamborete vazio próximo à porta e quis saber o porquê desse recado. Aqui e ali precisava pedir que a mulher repetisse o que dizia, porque falava rápido, olhando para o chão da casa, que era da mesma areia que havia no pátio em derredor.
            A mulher, de rosto sofrido, cuja idade não sei nem precisar, sempre com os pequenos escondendo-se atrás dela, disse-nos que não queria que a filha voltasse, porque a coisa estava cada dia pior. Arranjar comida já estava difícil até para os que ficaram. Se Marlene voltasse, seria uma boca a mais para dar de comer. Os filhos homens, que ficavam rapazes, fugiam de casa por causa da brutalidade do pai. Faziam falta no roçado para plantar e colher, mas era melhor assim. Largavam-se no meio do mundo, para tentar a sorte noutro lugar.
            Quando ela disse que nem sempre tinham o que comer, eu perguntei o que fazia com aquele monte de filhos pequenos. Nem lembro quantos, sei que eram muitos, creio que um filho por ano era a sua média. E quando comentei sobre isso, ela sorriu, e disse-me com voz cantada, penso que se orgulhando do fato:
            – Fora cinco qui morreru... e os mai véio qui foru imbora... tudo era dizenovi.
Queria que trouxéssemos uma garotinha de uns catorze ou quinze anos para que, como Marlene, pudesse arranjar um emprego em casa de família. Mas a mocinha, embora fosse uma das menos assustadas, recusou-se a nos acompanhar. Cada vez que a mãe falava no assunto e insistia para que nos acompanhasse, ela, quando não ficava calada, sacudia a cabeça em sinal de negação.
            Eu fiz muitas perguntas e dona Nova me respondeu, de bom grado, tudo o que quis saber. As meninas mais velhas vez por outra nos encaravam admiradas de nossas roupas e tênis; os meninos não tiravam os olhos do boné de Leonardo; mas, se fôssemos nós que resolvêssemos fitá-los com insistência, eles baixavam a cabeça e escondiam-se, uns atrás dos outros, encabulados.
            Respondendo à minha pergunta, dona Nova disse que, nos dias em que não têm nada para comer, todos se sentam no chão da sala e ficam, assim, sentados sobre a areia o dia inteiro, sem fazer nada.
            – Ficam conversando? – perguntei interrompendo sua fala, ao que ela me respondeu:
            – Nóis num tem o qui cunversá não, moça... nóis fica caladu mermo, isquecenu a fome...
            Olhei para Léo neste momento e senti que ele reprimia o choro. Eu tentava fazer o mesmo, quis até ficar calada para a voz não me trair; contudo, como era minha vez de falar, ficar calada seria pior. Decidi, então, continuar a conversa, mesmo com voz trôpega.
            – E as crianças?
            – Fica queta junto de nóis, tá tudo acostumado já, a fome aqui num é nuvidade não...
– Sim!... Sua filha Marlene mandou umas coisas para senhora... – disse Léo saindo apressado em direção ao carro.
            A meninada o seguiu curiosa, todavia mantendo sempre uma distância defensiva. Pareciam uns bichinhos assustados, pés descalços, cabelos aloirados em desalinho e marcas de feridas nas pernas.
            O meu companheiro retornou com a sacola cheia das novidades que comprara para sua mãe e a entregou à mulher. Achei o seu gesto louvável. Em seguida, tirou do bolso uma parte do seu salário e lhe entregou também, dizendo que Marlene tinha enviado. Dona Nova recebeu de cabeça baixa e proferiu uma bênção para nós e para sua filha.
Neste instante, os filhos, sentindo o cheiro de comida, começaram a puxar a saia da mãe, dizendo que estavam com fome. Eu aproveitei o alvoroço para, discretamente, espalhar, com as pontas dos dedos, as lágrimas teimosas que escapavam de meus olhos.
            A mãe, nenhuma resposta dava aos filhos que lhe puxavam a saia e repetiam que estavam com fome. Ela fazia gestos de reprovação e voltava-se para nós, esperando que fizéssemos mais alguma pergunta. Se não introduzíssemos a conversa, ela nada dizia.
            Sem nem ao menos contar o dinheiro que Leonardo lhe entregara, mandou que a menina mais velha o colocasse embaixo de um rádio grande e antigo que havia sobre uma mesinha no canto da sala, único móvel que havia além dos poucos tamboretes. Percebi que faltavam uns botões no rádio e, por curiosidade, perguntei se ele conseguia pegar as estações de minha cidade. Queria tão somente confirmar as minhas suspeitas: o velho rádio era somente uma peça de enfeite, um dos poucos pertences daqueles filhos da pobreza.
            Decidimos partir. Leonardo assumiu o volante, e eu, ao seu lado, volvia-me de vez em quando para olhar a trás, a fim de contemplar a mulher e os seus filhos em frente à baixa casinha de taipa. Até onde pude vê-los, estavam lá parados, junto à porta, olhando em nossa direção.
            Os rostos deles ficaram gravados em minha mente, ao longo dos anos: olhos que não choravam, lábios que não sorriam. 
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Fonte 1: Margarete Solange.  
Mais Belo que o Pôr-do-Sol e outros contos.  
Santos Editora, 2000.
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Fonte 2: Margarete Solange. 
Ninguém é Feliz sem Problemas e outros contos
Fundação Vingt-un Rosado, 2009.

A LENDA DO COTOVELO

Conto de Margarete Solange
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Final do século XXI. Era da invenção do CD voador como meio de transporte mais rápido e mais seguro. E também do atomolar, um telefone celular tão pequeno que pode ser transportado dentro da orelha, como se fosse um aparelho de surdez.
      Na varanda de um apartamento, de onde é possível apreciar belas praias que tornam magnífica a vista de uma agradável cidade brasileira, um garotinho requer a atenção da avó que, até então, lia uma revista. Apesar de ser uma senhora moderna, dona Carminha ainda preferia a leitura de livros e revistas impressos no papel, mas nem por isso desprezava a leitura eletrônica. Para ela, o avanço tecnológico era muito bem-vindo, mas em alguns pontos, tendia a preferir o tradicional.
– Vovó... – iniciou a criança, que não deveria ter mais que uns sete anos. – vovó outra, a mãe da senhora, me falou que não devemos botar os cotovelos na mesa durante as refeições. Eu perguntei por quê. Aí, ela disse que era porque sim...
– Ah, filho, minha mãe é muito apegada aos costumes antigos, e essa coisa de não colocar os cotovelos sobre a mesa é uma longa história...
– Mas eu quero saber... E ninguém até aqui quer me dizer. Já reparei que só as pessoas de cabelo branco não botam os cotovelos na mesa, mas os jovens nem ligam pra isso.
A jovem avó suspirou, deixou de lado a revista que lia e pôs-se a contar a história que sabia. A narrativa foi mais ou menos assim: 
Há muito tempo atrás, muito tempo mesmo, quando ainda existiam reis, rainhas, príncipes e princesas, uma rainha, sem paciência com seus filhos, consultava uma velha má para saber como deveria corrigir seus pequenos, a fim de que fossem SEMPRE silenciosos e JAMAIS lhe desobedecessem. 
A rainha era muito irritadiça, e castigava os filhos por qualquer motivo, principalmente o primogênito, que era um menino, e que, segundo ela, dava mais trabalho do que suas seis filhas juntas. Ela lhe dava todo tipo de castigo, a fim de mantê-lo comportado. Até que um dia, como a velha malvada não tivesse mais nenhuma novidade em conselhos para lhe dar, disse-lhe que o proibisse de apoiar os cotovelos sobre a mesa durante as refeições. Assim, sempre que o enérgico menino desobedecia, os seus cotovelos eram castigados até ficarem terrivelmente doloridos. 
A partir de então, o principezinho, que era alegre e brincalhão, tornou-se sorumbático e rancoroso. Quando cresceu e tornou-se rei, estabeleceu um decreto que mandava matar qualquer pessoa que, durante os seus banquetes, apoiasse os cotovelos sobre a mesa. Assim, todas as pessoas do seu reino, temendo ser mortas, tratavam de ser cuidadosas. Alguns, enquanto comiam, utilizavam cautelosamente uma das mãos e mantinham a outra sobre o colo, de forma que o braço ocioso ficasse tão forçadamente estático junto ao corpo, que até parecia ter sido morto por uma trombose. Observar a postura de tais pessoas suscitava o riso; mas rir, durante as refeições à mesa desse monarca, era igualmente proibido. 
Com o tempo, esse costume foi passando de geração a geração, até que se espalhou por muitos outros lugares, tornando-se parte das etiquetas de boa educação. Cotovelos apoiados sobre a mesa? Nem pensar!...
Isso durou muito tempo, até que, no final do século XX, a princesa de Lamonoc – quem sabe até descendente do rei frustrado que inventara essa besteira – resolveu não se importar com essas convenções. Ora, o cotovelo era dela, e ela decidiu colocá-lo onde bem quisesse. Isso foi da conta de todo mundo, um escândalo! Depois, foi a vez do príncipe de Lagrantierra escandalizar gregos e troianos, confessando aos repórteres que também era adepto de tal costume.
Logo que as pessoas se acostumaram com as infrações da realeza, pararam para pensar, e se perguntavam: “Afinal, que mal há em colocar os cotovelos sobre a mesa? Quem inventou essa lei?” Uns aos outros se perguntavam, mas ninguém sabia quando nem onde essa besteira começou. 
Nessa época, surgiram polêmicas entre as pessoas. Debates e mais debates em programas de televisão. Inúmeros livros e pesquisas foram publicados sobre o assunto. Por fim, os pesquisadores chegaram à seguinte conclusão: já que inventaram liberdade de expressão do pensamento e de tantas outras coisas mais, por que não declarar a liberdade de usar os cotovelos como bem entender?
Finalmente, foi aprovada a lei que assegurava, aos cotovelos, o direito de se apoiarem onde bem quisessem. Contudo, a geração mais antiga não conseguiu ainda se acostumar com os tempos modernos; passa mal ao vê alguém usando os seus pares de cotovelos para apoiarem as mãos que sustentam as caras sorridentes dos que, muito à vontade, conversam com amigos durante as refeições.
Alguns restaurantes ainda mantêm lugares reservados para aqueles que não se misturam com os adeptos da liberdade de cotovelo. Mas, segundo as estatísticas dos estudiosos do assunto, quando morrer a última pessoa dessa geração presente, esse tema fará parte do passado, e os cotovelos serão livres para sempre dessa maldição.
Tão logo encerrou a narrativa sobre “a lenda do cotovelo”, a jovem avó encaminhou-se ao terraço panorâmico no ducentésimo andar do prédio; e, enquanto o netinho brincava com seu brinquedo eletrônico hiper-ultra-moderno, pôs-se a matutar consigo mesma, observando as luzes dos CDs voadores ao longe.
Interessante como certos costumes são acatados pelas pessoas. Algumas nem entendem o sentido da coisa, mas aderem, simplesmente porque outros já aderiram, ou porque está no auge da moda, e todos fazem ou deixam de fazer. A maioria das pessoas não pensa por si mesma, e deixa-se aprisionar por certas convenções, sem qualquer questionamento. São poucos, na verdade, os que buscam o porquê das coisas.
– “CDs” voadores! – exclamou a mulher, falando consigo mesma. – Coisas de gente prática e moderna. E pensar que ainda existem pessoas que preferem se arriscar andando de automóveis! 



Fonte: Margarete Solange,
Mais Belo que o Pôr-do-Sol e outros contos.
Santos Editora: 2000.







sábado, 27 de março de 2010

UMA LEITORA ESPECIAL

Quando eu trabalhava como bibliotecária tive uma leitora muito alegre e divertida. Eu tinha imenso prazer em levar meus escritos para ela ler tão logo eu os criava. E como trabalhávamos em salas vizinhas, eu ficava aguardando o momento em que ela iria desatar na gargalhada. Ainda ouço sua gargalhada ecoando em minha memória. E espero ouvi-la sempre. Ela me considera uma grande escritora, agradeço pelo carinho. Eu a considero uma leitora formidável. Peço que me mande, por e-mail, uma foto sua bem alegre, para eu colocar nesta página, porque a estrela desta página é você, Nadjane.
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A vida é uma batalha que a gente enfrenta dia a dia. A vida, por vezes, é dura, e isso nos obriga a reforçar nossos alicerces.


Dedico para você esse salmo que fiz em tempos de angústia. Um abração.

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Clamor para Ouvir
a Voz de Deus
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Quem dera, Deus de Jacó,
Que das alturas reina,
Ouvisse meu pranto
E resolvesse enviar-me ajuda.
De sobre mim tiraria
O opróbrio e a tristeza
E me ergueria do monturo
Ao qual foi reduzido.
Sei que ouves meu pranto
E que de algum modo me respondes,
Mas sou eu quem não consegue te ouvir.
Meus ouvidos estão surdos
À tua voz, Altíssimo,
E penso que meus gritos se perdem
Sem que Tu ouças o meu clamor.
Sou eu Senhor que não compreende o teu falar,
O teu agir, o teu imenso amor.
Sinto-me pequeno, medíocre, perdido.
Não posso fingir que estou bem.
Faz-me ouvir a tua voz.

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..
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Salmos são versos de louvores
usados para cultuar a Deus .
Podem ser lidos ou cantados.
Podem também ser poemas
nos quais o autor expõe
todos os sentimentos de sua alma.


Fonte: Margarete Solange. Inventor de Poesia: Versos Lírico.  Queima-Bucha, 2010.

AMIGOS CACHORROS

A escritora Margarete Solange que desde a infância tinha fobia a cães, hoje tem esses dois meninos no seu círculo de amigos: O virador chama-se Rex e o labrador chama-se Meek. Esses dois têm sido companheiros e fonte de inspiração. Para eles escreveu os poemas: O Virador e o Labralata, Rex Vida-Boa e Meek e Eu, poema que faz referência à obra de Jonh Grogan, Marley e Eu. Há ainda uma participação desses meninos na poesia: Quintais.


Tom Rex, mais conhecido como Rex, tem seis anos. Ele se acha o tal, até porque descobriu que na cruz de Cristo tem o seu nome escrito: em latim Rex significa rei. Dizem que o pai dele era Pastor Alemão e mãe, vocês já sabem. Profissão: vigia noturno. Líder, esperto e às vezes, mal-humorado. Escala parede, brinca de esconde-esconde e obedece aos comandos: fica em pé; sentado; deitado; faz mortinho; dá a patinha: essa não a outra; peça desculpas; escolha (petisco escondido nas mãos fechadas). Ele é o cara!
Meek Sallim, cujo nome significa manso e saudável, é brincalhão e atrapalhado. Profissão: assustar visitas. Comporta-se como um vira (embora, Rex, que é um legítimo vira, seja respeitoso com as visitas). Obedece aos comandos: senta, dá a patinha, deita e faz mortinho. Tem cinco anos e é portador de um problema chamado displasia coxofemoral, portanto, não consegue executar comandos que o façam ficar de pé sobre as patas traseiras. Ele é fôfo! Adora um colinho, quando se joga em plena carreira transportando seus quase 50 quilos, o dono do colo é arremessado para trás.

Fotografias: Rafaella Medeiros

REX VIDA-BOA - Poesia Infantil


de Margarete Solange


Ilustração de Jorge Davi
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Cachorrinho afortunado,
Esse Rex vida-boa.
Não tem raça,
Mas tem graça,
Não vive na rua à toa,
Tem casa bonita,
Coleira e xampú.
Sabe como agradar,
Procura quem se esconde,
Brinca de pegar.
Em troca de carinho
Fica de pé ou
Sentado...
Dá a patinha e
Faz mortinho, o levado.
Esse cãozinho vira a lata,
Mas não vive na rua à toa,
Se foge sabe voltar.
Só come ração,
E biscoitos pra cão.
Mesmo sem raça
É cheio de graça,
Sabe se comunicar,
Pra dizer o que quer,
Só falta falar.

*   *   *
11.05.05

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Fonte: 
Margarete Solange. 
Inventor de poesia infantil: 
fantoches e poesias
Queima-Bucha, 2010
Ilustração de Jorge Davi*





MELISSA

Conto de Margarete Solange
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Era um sábado. Eu estava muito triste. Tinha acabado de chegar de uma gráfica onde tinha ido pedir o orçamento referente à publicação de meus livros. Estava pensando em fazer um empréstimo para mandar fazer pelos menos dois deles. Queria realizar o meu sonho, que afinal não era tão extraordinário assim. Todavia, cada vez que eu chegava perto, ele afastava-se de mim, fazendo-se inalcançável. 
        Comecei a resmungar por ter de percorrer caminhos tão longos para alcançar meus objetivos. Neste momento, o telefone tocou, atendi quase sem disfarçar o tom irritadiço de minha voz. Estava com raiva de mim mesma e do mundo inteiro.
Sobrevinham-me problemas vindo de todos os lados: crise financeira, salário baixíssimo, consertos para fazer na casa e nos móveis, filhos arranjando encrenca a todo instante. Enfim, tudo parecia estar fora do lugar na minha vida.
        Do outro lado da linha, falava a filha de dona Elda. Essa senhora sentia-se atormentada por muitos males, e sempre que piorava, enviava-me um recado, pedindo-me que fosse vê-la. Eu era, para ela, uma espécie de enfermeira espiritual. Primeiro eu lhe ouvia em silêncio os queixumes; quando ela findava, dizia-lhe palavras de otimismo e esperança. Costumava cantar para ela hinos alegres, lia também alguns trechos da Bíblia Sagrada e, depois, encerrava com uma oração na qual pedia a Deus que lhe concedesse saúde. Ela garantia que melhorava com as minhas visitas, e isso me deixava feliz; eu pensava comigo mesma: pelo menos para essa atribulada viúva estou sendo útil.
       Costumava prontamente atender aos seus chamados, mas, no momento, eu não estava conseguindo ajudar nem a mim mesma, como poderia, então, levar alento àquela senhora carente?
Logo eu, que tento ajudar os outros a vencer a depressão, estava deprimida, precisando de alguém para me ouvir e compreender a razão do meu enfado. Se nós estamos sensíveis, magoados, tudo nos atinge. Infelizmente, esses momentos de tribulações parecem gigantescos, ao passo que os momentos de refrigérios mostram-se tão raros e passageiros.
Aprontei-me devagar. Tinha que ir ver a minha velhinha, não podia dar-lhe esse desgosto. Eu só precisava sentar ao lado dela e deixá-la desabafar suas dores, seus queixumes.
Bati à porta, ela respondeu da sala mandando-me entrar. Estava péssima, deitada, quieta, não podia nem se virar em minha direção. Cumprimentei-a, pus o tamborete junto à rede na qual ela estava, e limitei-me a ouvir-lhe a voz débil, chorosa. 
Assim que ela encerrasse suas falas, o que eu teria para lhe dizer? Que tivesse ânimo, pois tudo iria ficar bem? Como eu iria dar-lhe esperanças se eu mesma estava sentindo-me desesperançada? Lembrava-me dos hinos que cantava para ela ouvir: “Quem está alegre, cante louvores”, diz a Bíblia; porém, na minha tristeza, achei melhor não cantar, assim a pouparia de perceber o meu descontentamento.
        Estava muito silenciosa ouvindo os queixumes de minha paciente, quando subitamente duas mãozinhas seguraram a cortina que o vento jogava pra lá e pra cá, e logo pude ver uma carinha sapeca me espionando. Olhou-me e fugiu rapidamente como uma coelhinha assustada.
       Melissa era uma garotinha de seis anos de idade que morava numa Casa de Passagem, uma espécie de orfanato onde se recolhem crianças carentes. Uma das filhas da senhora Elda trabalhava lá. Vez por outra a moça conseguia autorização do juiz para trazer a pequenina a passar o final de semana com eles.
         – Melissa... – chamei-a.
Como não obtive resposta, continuei chamando-a. Percebendo que não atenderia ao meu chamado, dona Elda, com certo esforço, ergueu a voz para me auxiliar. Desta vez, a menina apresentou-se no portal que dividia sala e quarto. Sorri para ela e convidei-a para sentar ao meu lado.
Fiz algumas perguntas sobre a sua vida. Fiquei sabendo que já frequentava uma escolinha, porém ainda não sabia ler. Gostava de brincar e de assistir televisão. Entretanto, onde morava frequentar a sala de TV era permitido somente às crianças de mais idade. Visavam, com esse procedimento, proteger as crianças menores dos conflitos com as maiores.
Melissa era muito meiga. Percebi que estava gostando de estar sentada coladinha a mim, enlaçada pelo meu braço. Era pequenina e franzina, mas era bem esperta, sabia conversar com desenvoltura.
Perguntei-lhe se tinha um sonho, algo que gostaria muito que acontecesse. Ela girava a cabeça de um lado para outro, com parte dos dedos indicador e polegar dentro da boca, sem me dar nenhuma resposta. Repeti várias vezes a pergunta, porque achava que não tinha me compreendido direito. Por fim, retirou os dedos da boca e declarou com voz firme:
– Quero ser professora!
Fiquei surpresa. Esperava que ela dissesse que gostaria de ganhar uma boneca ou outro brinquedo qualquer. Acredito que, inconscientemente, eu desejava que ela tivesse um sonho que eu mesma pudesse ajudá-la a realizar.
O que seria da vida sem os sonhos, não é verdade? Temos que continuar vivendo e sonhando, não importa se esses sonhos são possíveis ou impossíveis...
Ser professora era um dos meus sonhos de criança. Era algo que eu desejava ardentemente. Nas minhas brincadeiras de escolinha, eu ensinava as crianças menores a ler e escrever. Sentia-me realizada ao vê-las aprendendo de verdade. Recebia elogios por causa disso. Os adultos diziam que eu tinha mesmo vocação.
Reformulei minha pergunta. Expliquei-lhe que ser professora era um sonho que ela queria realizar quando crescesse, mas eu gostaria de saber se ela tinha um sonho que desejava que acontecesse logo, enquanto ela era ainda pequenina. Desta vez, ela não tardou muito a me responder:
– Quero assistir televisão no Natal.
Ao ouvir-lhe as palavras, senti vergonha de mim mesma: tão insatisfeita e magoada só porque ultimamente as coisas não davam muito certo para mim. Estava ansiosa demais diante de situações que talvez fossem apenas crises passageiras. O meu sofrer não era nada comparado ao daquela menininha sem lar.
Os pais de Melissa se separaram, e a sua mãe ficou sem ter onde morar; assim sendo, teve que entregá-la à Casa de Passagem. Ela vivia lá para escapar da fome, da vida nas ruas, mas mãe dela não consentia que fosse adotada.
Pobre criança! Assistir TV no Natal não seria o seu grande sonho se ela tivesse um lar que fosse seu realmente. Ela não compreendia ainda, mas sua dor era bem maior que todas as minhas dores juntas.
Olhei através da porta aberta e percebi que o sol estava partindo. Quando eu era criança, o pôr do sol indicava o fim de nossas brincadeiras, porque era hora de tomar banho, e não podíamos nos sujar mais.
Perguntei quem iria ajudá-la a tomar banho, e ela disse-me que faria isso sozinha, e se foi risonha de volta para suas brincadeiras.
Mais ou menos vinte minutos depois, despedi-me de minha boa velhinha e retirei-me sem pressa. Atravessei o pátio da casa e saí pelo portãozinho de ferro. Ao caminhar pela calçada, voltei-me e olhei por cima do muro: Melissa estava no quintal brincando sentada sobre a areia, certamente não estava preocupada com nenhum dos seus sonhos naquele momento. Acenei, e ela retribuiu-me o aceno sorridente.
Nessa mesma noite, antes de dormir, chorei por minhas duas amiguinhas. Se eu pudesse ajudá-las... se eu pudesse realizar o grande sonho da vida delas, daria saúde à senhora Elda e um lar à menina Melissa, quem sabe assim eu me sentiria feliz, mesmo que não pudesse realizar meus próprios sonhos
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*    *      *

Fotografia de Irak Xavier
Fonte: Margarete Solange.
Mais Belo que o Pôr-do-Sol e outros contos.
 Santos Editora: 2000.