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sábado, 24 de julho de 2010

SER OU NÃO SER?

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Conto de Margarete Solange
ser 
Ser ou não ser”... O quê, por exemplo? Muita coisa. Tudo na vida é uma questão de escolha. Será? Talvez sim, talvez não. Às vezes a coisa é tão simples, mas nós optamos por complicá-la, daí cada um tem uma opinião diferente sobre isso ou aquilo, de modo que a gente nunca tem a certeza de nada. O que parece simples para uns, é complicado para outros; o que é chato para uns, é prazeroso para outros. E por aí vai...
A linguística, por exemplo, geralmente é antipatizada pelos estudantes. É certo que ela é complicada, mas e daí? As mulheres também são. Por outro lado, os que se metem a estudar com afinco essa disciplina defendem que ela é sedutora como uma mulher que nada tem de fácil, mas deseja ardentemente ser compreendida. Pois é, quando a gente se apaixona, nada é tão complicado.
A questão é que, ultimamente, estou com uma grande dúvida entre ser legal ou ser chato. Mas penso que ser chato é a melhor opção. Penso e justifico.
Ouvi recentemente um garoto de doze anos muito descontente com sua mãe, e sem rodeios disse-me o quanto ela era chata, exigente, cansativa, etc. Isso porque não permitiu que ele jantasse sem tomar banho. Bom, se ele já estava o dia inteirinho sem tomar banho, e até já cheirava bastante mal, acho que não seria muito lógico ser legal numa situação como essa. Além do mais, na tarde desse mesmo dia, o mesmo garoto permitiu a entrada de um bando de coleguinhas na cozinha. Fizeram a maior bagunça, pegando nos copos e nas garrafas de água com mãos sujas de terra, de rabugem de cachorro, de sei lá mais o quê. Resultado: levou uma bronca daquelas que começa com: “Meu filho, eu já não falei pra você que...”.
Os filhos detestam esse começo da reclamação. Razão pela qual, nem chegam a ouvir o final e, talvez por isso, tornam sempre a fazer aquilo que os pais dizem para não fazer. Pois é, todo e qualquer pai ou mãe que começa o sermão em tom aborrecido, dizendo esse mesmo blá-blá-blá, vai para o clube dos chatos ou dos cansativos, o que é uma classificação ainda pior.
Por outro lado, há pais que classificam os filhos adolescentes como sendo a própria chatice. Todavia, sobre isso eles não concordam, já que, para os adolescentes, chatos mesmo são os colegas tímidos que não pensam em namorar. Os mesmos, que na sala se aula, geralmente sentam nas fileiras da frente, prestam atenção às explicações e sempre acertam as perguntas que os professores fazem.
Existe ainda aquela engomadinha já adulta que sabe se comportar em palestra e deseja ouvir tudo que o palestrante está dizendo. Porém, não consegue, visto que um grupinho muito mal-comportado fica conversando e rindo o tempo inteiro. Isso, claro, para depois ficar perguntando a um e a outro o que foi dito de importante. Nesse caso, a incomodada, depois de já ter pedido silêncio uma dezena de vezes, resolve se irritar e acaba perdendo a elegância.
Ah, lembrei-me que existe ainda o chato do vizinho, que se aborrece se porventura está tentando dormir e a garotada resolve fazer uma farra bem debaixo de sua janela. Diga-se de passagem que nenhum dos garotos é filho dele, pois ele só tem filhos adultos, casados e morando noutra cidade. Pois é, esse vizinho, quando resolve enxotar a criançada, é um terror. Então uma mãe bem legal comenta com o marido:
– Ah, velho chato! Pra que se aborrecer com os bichinhos? Eles nem estavam fazendo nada demais. Pode ir, meu filho, faça bem zuada debaixo da janela do velho. Se ele reclamar, jogue uma pedra na janela e corra pra casa. Deixe o resto comigo.
É isso aí, essas mães legais adoram proteger os filhotes. Compram tudo que eles desejam. Claro, se não comprarem eles se amuam, esperneiam e caem no chão, tendo o maior chilique do mundo. Isso quando não fazem greve de fome.
Pais legais são assim: o desejo de um filho é uma ordem. E ai deles se não obedecerem! Ai dos filhos? Não. Dos pais. Filhos de pais muito legais geralmente não obedecem. Manipulam, chantageiam com pressões psicológicas, convencem os pais de que, se não querem nada com os estudos, a culpa é dos professores, que são uns chatos.
E são mesmo. Professor não tolera quem bagunça em classe, principalmente durante a explicação. Ora, se alguém tem nada a ver se ele tem calo nas cordas vocais, se ganha pouco e as turmas são superlotadas.
E como se não bastasse a matéria tediosa, ainda vem com a chatice de dizer que o aluno deveria valorizar o ensino, para garantir um futuro melhor. Quem é que quer saber de futuro melhor? O momento é agora! Numa boa! A vida é curta e o legal é aproveitar essa coisa moderna de ficar com alguém sem compromisso, fugir da aula para teclar com os amigos ou comparar o celular para ver quem tem o modelo mais bonito.
Essa modernidade é uma coisa linda: comprar livros, o jovem não pode nem quer, mas para adquirir um celular, sempre dá um jeitinho. Para isso, não existe desemprego nem pobreza.
Então, o chato do professor de português, só porque pegou uma garota mandando um torpedo para um colega, resolve dar um exemplo dizendo:
– É, pessoal, até pra usar o celular tem que saber português. Quem não sabe usar a língua fica enviando mensagens cheias de erros.
Nesse instante, um bonitão sarado resolve mostrar seu linguajar pós-moderno.
– Aí, galera, o professor viajou na maionese. A gente até que mandamos bem o purtuguês, falou? Agora, se tu acha que a gente não sabemos, quanto mais a galerinha que tá do outro lado... Eles escrevi pior do que a gente escrevemos.
A classe inteira achou a piada muito engraçada, menos o chato do professor. Coitado de seus ouvidos gramaticais...
Por outro lado, tem professor que até que é bem legal. Deixa a turma bem à vontade. Quem quiser colar, que cole, ele não pega no pé de ninguém. O problema é que não se aprende nada com ele, só quem já sabe. E tem aluno por aí que sabe muito, é fera em matemática, português, inglês... mas é chato, não dá cola a ninguém, e geralmente usa óculos. Será que aprender muito faz mal a vista? Porque se faz, é bom nem aprender, pois usar óculos não é nada legal.
Por falar em óculos, sei de uma garota que fazia questão de ser legal. É difícil ser legal. Usar óculos é bem mais fácil, não há nem comparação.
Mas como ia dizendo, essa garota míope certa vez foi convidada para passar as férias na casa de praia de uns amigos e, como era muito branquinha, comprou um bloqueador solar recomendado pelo dermatologista, e que era bastante caro. No primeiro dia, tudo tranquilo. No segundo, aquele povo prestativo, que tudo que tem é de todos, começa a oferecer coisas e favores, cheios de “boas intenções”. Sem contar que esses legais falam pelos cotovelos... adoram ser extrovertidos, e assim se extrovertem até onde não os cabe.
– Nossa! Você usa esse bloqueador? Eu também. Ele é tudo de bom. Comprou onde? Quanto foi? Caramba! Como foi barato. Lá onde eu compro é quase o dobro desse preço. Não comprei porque tava em falta... Posso pegar um pouquinho?
Mesmo desagradando a si mesma, a convidada concorda.– Claro, fique à vontade...
A espalhafatosa, então, muito à vontade deixa até de usar o que é seu para aproveitar o alheio.
Nos últimos dias de férias, a gentil não podia nem mais se expor ao sol porque não tinha uma gotícula sequer do seu rico bloqueador. A outra, por sua vez, resolve se desculpar, muito compadecida:
– Mulher... Acabaram seu protetor, tadinha... Mas deixa estar que amanhã eu vou dar uma volta por aí e vejo se encontro um bloqueador igual ao seu.
Logo após, segue-se aquela sessão de “não se preocupe”, “não precisa”, “faço questão”, “imagina” etc. Porém, o que todo mundo sabe é que essa troca de gentilezas sempre favorece os mais espertinhos. E, ao que parece, as pessoas legais são muito espertinhas...
É terrível essa coisa de ser branco demais! Bom mesmo é ter pele morena, bronzeada, uma cor mais escurinha. Mas, aí vem o racismo. As pessoas adoram se divertir fazendo piadinhas com o negro. Não fazem por mal, não. É só de brincadeirinha. É superlegal essa coisa de ridicularizar pessoas – gordo, baixinho, careca, narigudo, vesgo, homossexual, solteirona encalhada – desde que a pessoa em questão não seja você, nem alguém da sua família, nem alguém de quem você gosta muito. Porque se for, aí não tem graça nenhuma. Qualquer um que resolva afrontá-lo com piadinhas de mau gosto – pode ser seu melhor amigo – deixa de ser legal imediatamente.
E agora, ser ou não ser? Sinceramente, não quero ninguém por aí me chamando de legal, não. É chato demais ser legal. Quem é legal, não pode se irritar nunca, mesmo quando meio mundo resolve saturar a sua paciência, isso sabendo que você não está num bom dia. Experimente dizer em casa ou no seu local de trabalho que está estressado, irritado ou com dor de cabeça, e peça para lhe deixarem em paz. Geralmente não deixam. Você tenta outra vez. Se não deixam, você, então, perde a paciência e o título de legal que levou anos para conquistar. Decididamente, não é fácil agradar. É mais simples ser chato. Já reparou que as pessoas falam menos mal do chato? Sim, porque ele tem o direito de dizer um não se alguém lhe pedir um CD emprestado. E quando o que pediu o empréstimo vai comentar com outro chato, esse trata de lhe refrescar a memória dizendo:
– Também, todas as vezes que você pede um CD emprestado só falta não devolver e quando devolve o bicho tá todo arranhado...
Felizmente, os chatos se entendem. Um não pede nada emprestado ao outro, isso para dar o exemplo e porque entende que um chato detesta emprestar os objetos que adquiriu com tanto esforço, e pelos quais tem grande zelo e carinho.
No entanto, as pessoas legais, que dividem tudo com todos e que tudo dos outros tem que ser seu, quando percebem o zelo e a organização que alguém tem com suas coisinhas, abre a boca e diz:
– Ô, besteira, parece que nunca teve nada na vida!
E assim passeiam esses seres simpáticos pela vida afora, falando mal de quem não é igual a eles. Divertindo-se, fazendo gracinhas com os defeitos alheios, dando gargalhadas espalhafatosas, arrotando alto, emprestando e pedindo emprestado, classificando, em infinitos concursos, quem é chato e quem não é.
Enfim, a chatice humana é uma questão tão importante e tão interessante que até merece uma ciência só para ela: a chatologia. Essa ciência acredita que todo e qualquer ser humano tem direito a sua parcela de chatice. É bem verdade que existe controvérsia no momento de definir o que é chatice e o que não é. Existem os chatólogos que defendem que o chato comedido é aquele que encaixa a sua chatice num momento bem apropriado. Todavia, chato mesmo é aquele que nega a sua chatice e se apresenta como modelo de perfeição. Por outro lado, aqueles que discordam de tudo e de todos, os chatos que acham que apenas eles mesmos são os donos da verdade e do saber, não se constituem objetos de estudo dessa área de investigação, pois pertencem a outra classificação: são os chamados in-su-por-tá-veis, ficando, portanto, o seu estudo além dos limites da chatologia.
Existem alguns chatólogos que acreditam que o uso moderado da chatice é um excelente remédio para quem quer se defender ou evitar aborrecimentos futuros ainda maiores. Saber se equilibrar na linha imaginária da chatice máxima permitida é o grande segredo do bem viver, do amar e ser amado.
Enfim, assim como na boa culinária, a vida também precisa de tempero, por isso, “os muito legais que me perdoem, mas uma pitada de chatice é fundamental”. É isso aí: “That’s the question”. E não é de agora que se indaga sobre essa questão. Até Shakespeare queria saber: “Ser ou não ser?” E, para encerrar com uma reflexão bem filosófica, por que não dizer: 
– “Ser chato é humano; não ser, é divino”.


Fotografia de Felipe Galdino       *      *

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Fonte: Margarete Solange.
Ninguém é Feliz sem Problemas.
Fundação Vingt-un Rosado, 2009.


Obra premiada no concurso literário
escritor Norte-riograndense:
Projeto Rota Batida III.
Fundação Mossoroense
em dezembro de 2008.

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12 comentários:

  1. acabei de chegar da praia e me deparo com este conto,tudo que vivi nestes dias está aíMe decidi por ser chata por tempo indeterminado.

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  2. Gostei muito deste conto. vi um pouco de mim nele, não só de mim, mas de minha noiva linda também,hehehehehehe!as vezes ela diz que eu sou chato. tenho minhas suspeitas de que ela está mesmo é fazendo mestrado em chatologia.

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  3. Nadjane acabaram seu bloqueador??? Nossa! kkkkk

    Pessoal adoro esse conto, eu sou chata mesmo e não nego. Clezio, o mestrado não é em chatologia, mas é uma boa idéia... hehehe

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  4. Acabaram foi tudo,até o biquíni,o pior é que ñ sei com quem ficou.
    Na praia já sou vista como chata por querer tudo arrumado e limpo,porém em outras coisas sou besta D+.Resolvi ficar chata em todos os sentidos.Rsrsrsrsrs.

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  5. Esse conto é massa, legal! Dá certo pra todo mundo porque todo mundo tem um pouco de chatice. Eu mesmo me acho chata, mas quando vejo alguém mais chata que eu, não me acho tão chata assim. Pois é, como o conto diz, se a gente for legal o povo se aproveita pra dedeu, tem que ser chato pra não se feito de besta.

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  6. Respondendo a pergunta, titulo do conto, ser ou não ser? Respondo: é chato SER chato, não é preciso SER. Se a gente for sempre LEGAL, as pessoas que não tomam SIMACOL em gotas, comprido tampouco em supositório, acabam abusando da nossa LEGALIDADE. Portando, ai vai minha mensagem filosófica: É chato, ser chato, mas é preciso!

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  7. kkkkkkkkkkkk pegaram pesado hein Nadjane? rsrs
    É isso ai, o negocio é ser chata mesmo. Viva as pessoas chatas! Iupiiiiiiiiii!!!

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  8. É isso ser chato é preciso, mas não vamos exagerar pessoal. Tem quem ser chato com moderação, se não ninguém te aguenta, valeu?!

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  9. Gente de Deus!Que mulheres lindas!Onde vocês estão? É por essas e outras que não envio as minhas,vc ñ tem idéia,fico mais feia do que sou.
    Essa ficaram bem mais adequadas ao conto.

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  10. Obrigada, querida. Você é sempre muito generosa nos seus elogios. Beijão!

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  11. Eu simplesmente ADOREI esse conto, as fotos,(é claro rsrsrsr), pois tudo que diz nesse texto é a minha cara, o meu estilo, o meu eu... Não existe nada melhor do que ser de vez em quando uma pessoa chata... eu confesso que sou muita chata, e sei ser extremamente chata quando quero... Mais tambem as vezes nem somos chatos, queremos ser apenas legais mais as pessoa não entendem e nos considera chato sem nos conhecer...
    Mais mesmo assim a vida continua...

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  12. Eu já comentei o conto anteriormente, agora voltei para comentar as fotos, aliás, a foto que se transformou em várias kkkkkk. Também gostei, claro! Achei ótima, e é porque tirei sem querer, numa brincadeira, mirei a máquina e disse: olha aqui pessoal. Eh o negócio e ser espontâneo!

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